segunda-feira, 25 de julho de 2011

A ambiguidade entre as palmas e o punho

 para Ana Araújo e Clara Lazarim

Ela projetava o amado num encaixe perfeito em seu corpo, a ciência mesma já disse que os corpos humanos possuem encaixes impecavelmente calculados como se os amantes se pertencessem no leito amoroso, foi o que uma vez a disseram. Então o amado enfim a chegava silencioso e transbordante, venha cá, e ela ia toda caprichosa tentado desfazer de si toda timidez e encanto feminino, olhe pra mim, ela conduzia, olhe só como eu sou toda incompleta esperando por tanto tempo a sua chegada. Ele então se hospedava, a principio, com os dedos e palmas abertas e a envolvia como num abraço de amantes saudosos e emocionados de tanto amar, mas o abraço já era sufocante por um momento e de repente por mais outro. Ele então virou o rosto dela para o lado, fique quietinha, e a limitou da única visão da parede e ela olhava e já não podia mais ver o amor que ele realizava ali, que ele praticava nela, já não realizava, já não era mais amor, e continuava olhando pra parede sem participar de amar e então fechava os olhos pra já não ver e o que sentia também tentava não sentir mais.
No corpo, somente sua palma frágil e delicada conseguiu se encaixar fracassadamente no punho, que mais tarde, foi o que menos causou a dor.

1 comentários:

  1. Me fez lembrar das partes em que o sexo é descrito em "Olhai os Lírios do Campo" do Érico Veríssimo.

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