sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Adágio lamentoso

     
     Um dia a orelha de todos nós estará ocupada permanentemente por dois fones cravados e fixados nos tímpanos. Então, nesse dia, o motorista do ônibus não terá percebido que a roda furou porque estará comovido demais no ápice da Sinfonia n.º 6 de Tchaikovsky, muito menos os passageiros, concentradíssimos e obedientes perante a cascata de notas que entupirão seus ouvidos. 
      Nesse dia também não haverá mais notícias e aí sim perderemos todo o interesse e prazer existencial de terminar o jantar ao som do casal Bonner contando que mais trinta morreram no acidente de um ônibus. Só se faltarem aos telespectadores fones de ouvido decentes ou intensidades sonoras consideráveis, né. Pobrezinhos.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

ensaio sobre o esboço


Ele já havia desistido de existir faz tempo
o seu ser foi se tornando um sendo
e foi indo, e foi sendo um indo durante um tempo
e todo o tempo então foi sendo
tão real quanto o existir.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Descostura


Parecia mesmo era que a minha cintura iria se desprender, se descosturar todinha de mim e cair no chão que nem um pedaço de pano velho. Eu então seria mais leve, tão mais leve e tão menos mulher.

sábado, 7 de agosto de 2010

Gerúndio finito


Um dia ela me disse que era para deixar as coisas simplesmente acontecerem. Simplesmente, acontecerem. Sensato, não? Uma alternativa poeticamente sensata de cometer uma dúzia de devaneios e culpar o “aconteceu”, “foi sem querer”, “era maior do que eu”, “foi mal, aconteceu”. E eles vão acontecendo, um atrás do outro, e eu, sendo um decente amante da liberdade de sentimentos e relações abstratas, deixo acontecer e penso, poxa, aconteceu.
Então é isso, é só deixar acontecer, certo? É, só isso. Mas me diz, como que posso simplesmente deixar acontecer o que eu venho planejando minuciosa e secretamente, compondo com todos os detalhes e notas dessa espécie de ópera sustentada por tons românticos e melodias humildes; Como que eu posso deixar simplesmente acontecer o que eu venho cogitando com tantos ângulos e alternativas, acontecer assim, e somente deixar acontecer? Acontecer e terminar, e acabar e ir embora e nunca mais ter uma minúscula possibilidade de acontecer do jeito que deveria (ou que poderia, talvez) acontecer.
Então me diz, você realmente acha que eu posso deixar acontecer o que vem acontecendo em mim quase que o tempo todo?

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Tripas enlaçadas


A água que cai ali de cima se associa aos meus odores e aos vestígios da minha pele, leva de mim todo o resto de hoje, escorre pra esse ralo a companhia dos caras do ônibus, do cheiro urbano das 18:00 horas no centro da cidade. Tira esse meu cheiro de mim, esse meu cheiro de gente, toda essa humanidade minha que permite os meus resíduos e odores orgânicos. Essa água que escorre da minha cara e delineia o meu corpo vai pra lá, vai pra esses encanamentos sujos e escondidos da faxina que a diarista fez hoje aqui e vai lá pra baixo, seja lá aonde for isso, leva pro encontro do dia de outros numa reunião desorganizada do produto bruto de cada residência, independente de classe social ou de qualquer outro critério de pecuinhas.
É lá que a humanidade se une num incrível fluxo de realidade sincera. E amigo, vou te contar heim, lá fede.

Janelas opostas


Elas esperavam um bom dia pra se ver, um dia assim, meio solto, com o céu bonito, todo azul com nuvens ali e aqui, sabe aquelas nuvens massudas? E um sol estupendamente quente e distante, só para enfeitar o azul, com um vento gostoso que aliviasse o calor. Elas queriam se encontrar só se fosse com uma tarde calma, embaixo da sombra de uma árvore, um dia em que acordassem com a pele mais bonita, quem sabe, a voz mais firme o corpo mais disposto; elas queriam se encontrar num dia com ar otimista, um dia com uma cor sutilmente romântica, um dia de grama verde, um dia em que não houvesse caos nas ruas. Um dia em que todos eles fossem gentis, que fosse melhor, que tudo se ajeitasse num jeito típico de dezembro em pleno julho úmido e gelado.
Elas, mesmo assim, esperavam e continuavam esperando. Até que elas não se viram.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Subúrbio domicilar


Me disseram que perder o tempo é acordar quando o sol já indica o meio do dia lá no lado de fora da janela enquanto você continua amassando o colchão e insiste em permanecer ali com uma energia de insônia diurna. Então, enfim, arrasta os pés e o corpo e você, todo enrugado de sono e marcado da incrível noite de amor com o travesseiro babado e o cobertor selvagem, caminha em direção a cozinha e mastiga alguma coisa em intervalos de suspiros, acrescenta uma musica pra quem sabe, se sentir mais descontraído com a sua situação confortavelmente deprimente de uma noite preenchida por downloads e vanilla sky dublado na tnt.
Ah, é isso, você pensa, enquanto encara a janela com o sol alinhado no centro do céu, olha lá, já ta acontecendo. As pessoas já tão caminhando lá na rua e fumando cigarros, já almoçam, alguns já dão o cochilo da tarde e outros já planejam o dia seguinte. E você? Você com suas meias de lãs vai deslizando no assoalho e senta a sua bunda gelada em frente ao computador. Estica os pés por cima da mesa, olha pela janela. O sol continua no mesmo plano.
Perder tempo, como vocês dizem, digamos que seja basicamente isso. Mas sabe, pra mim o sol sempre esteve ali, no mesmo lugar, durante toooooodo o dia.