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quarta-feira, 2 de março de 2011

Reflorestamento do tédio


Eu tenho a leve impressão de que às vezes, enquanto e durante o tempo em que meus olhos se perdem na brancura do teto com o limite sujo da parede, que ao meu lado, embaixo e em todo o meu redor brotam plantas, ramos que se expandem pelos móveis e inclusive se apoiam nos meus pés esticados no comprimento da cama. E eu continuo pensando e roendo as unhas, meus cabelos crescem e brotam juntamente ao habitat e cá continuo, as unhas vão alongando e o meu corpo depilado já começa a florescer outra vez e ainda estou aqui, as unhas pretas, o quarto amarelado, uma trepadeira avançando já pelo corredor e galhos tomando sol sob a janela, gramíneas colorindo o assoalho de verde e minuciosas flores aqui e ali, tímidas e murchas.
Então quando eu suspendo a cabeça pra dar uma bisbilhotada ao meu redor, eu chego à conclusão de que eu sou a rainha da floresta coroada por várias margaridas costuradas em ramos e raízes. Essa sou eu, a rainha da floresta. 
Espera, acho que não era isso o que eu queria dizer.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Adágio lamentoso

     
     Um dia a orelha de todos nós estará ocupada permanentemente por dois fones cravados e fixados nos tímpanos. Então, nesse dia, o motorista do ônibus não terá percebido que a roda furou porque estará comovido demais no ápice da Sinfonia n.º 6 de Tchaikovsky, muito menos os passageiros, concentradíssimos e obedientes perante a cascata de notas que entupirão seus ouvidos. 
      Nesse dia também não haverá mais notícias e aí sim perderemos todo o interesse e prazer existencial de terminar o jantar ao som do casal Bonner contando que mais trinta morreram no acidente de um ônibus. Só se faltarem aos telespectadores fones de ouvido decentes ou intensidades sonoras consideráveis, né. Pobrezinhos.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

ensaio sobre o esboço


Ele já havia desistido de existir faz tempo
o seu ser foi se tornando um sendo
e foi indo, e foi sendo um indo durante um tempo
e todo o tempo então foi sendo
tão real quanto o existir.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Subúrbio domicilar


Me disseram que perder o tempo é acordar quando o sol já indica o meio do dia lá no lado de fora da janela enquanto você continua amassando o colchão e insiste em permanecer ali com uma energia de insônia diurna. Então, enfim, arrasta os pés e o corpo e você, todo enrugado de sono e marcado da incrível noite de amor com o travesseiro babado e o cobertor selvagem, caminha em direção a cozinha e mastiga alguma coisa em intervalos de suspiros, acrescenta uma musica pra quem sabe, se sentir mais descontraído com a sua situação confortavelmente deprimente de uma noite preenchida por downloads e vanilla sky dublado na tnt.
Ah, é isso, você pensa, enquanto encara a janela com o sol alinhado no centro do céu, olha lá, já ta acontecendo. As pessoas já tão caminhando lá na rua e fumando cigarros, já almoçam, alguns já dão o cochilo da tarde e outros já planejam o dia seguinte. E você? Você com suas meias de lãs vai deslizando no assoalho e senta a sua bunda gelada em frente ao computador. Estica os pés por cima da mesa, olha pela janela. O sol continua no mesmo plano.
Perder tempo, como vocês dizem, digamos que seja basicamente isso. Mas sabe, pra mim o sol sempre esteve ali, no mesmo lugar, durante toooooodo o dia.

domingo, 27 de junho de 2010

Metalinguagem falada


Ela me dizia, e ela dizia mais ou menos assim com as palavras se esbarrando e se entrelaçando num neologismo espontâneo acompanhado por uma voz adocicada; ela me dizia que não era mesmo uma coisa muito esquisita, não era? Essa coisa de somente escutar as pessoas e conseguir identificá-las pelo tom de voz, pelo timbre, pelo sotaque, por ela mesma. De escutar alguém e vir na sua mente a imagem da pessoa e junto com ela, todas as características e registros de quem ela é, os documentos emocionais que ela entregou pra você e que por eles você se guia numa linha de tratamento com ela. A voz da pessoa entra pelos ouvidos como se carregasse a pessoa pra dentro da gente, e lá dentro, a gente entende a pessoa do jeito que a gente pode.
A pessoa é um pouco nossa, então. Pois é, um pouco da gente também.
Acho que era um pouco de mim.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

zzzzzzz


Bateram na porta. A porta era de vidro, e ela lá fora conseguia me enxergar sentada no outro lado da recepção com o livro aberto, pousado nas coxas cruzadas. Eu ergui meus olhos, olhei para ela. Ela tentava, inutilmente, abrir a porta. E eu olhava: “ta aberta” pensava, e ela continuava empurrando a maçaneta e tocando a campainha. A recepcionista ria ao telefone. Nos outros bancos, somente revistas. E eu ali, bem na frente, observando com precisão a cada pressionada que ela dava com os dedos firmes na maçaneta, claro, tava escrito “pressione” e ela pressionava, ela obedecia e pedia ajuda pela campainha. A recepcionista prendeu o telefone entre o ombro e a orelha, depois começou a lixar as unhas. E eu ali, silenciosamente dizendo “moça, ta aberta”.
Ela então abriu. Entrou, fechou a porta com os olhos cravados no chão. Olhou pra mim, sorriu de lado: “Olha só, tava aberta...”.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Complexo das unhas roídas



“Já ouviu falar que quem rói unha tem mágoa de pai?” Ela perguntou baixinho do meu lado.E eu dizia, sim, já ouvi, já sei dessa história, de mágoa de pai, e continuava mordendo as cutículas e puxando as fibras da superfície da unha. Às vezes esticava uma camada grossa e rugosa de esmalte escarlate no resto de unha, e depois, cuidadosamente, esfregava a tampa da caneta ou a ponta de uma tesoura na tinta seca aos poucos até suspender toda a casca do esmalte em fragmentos vermelhos. Ficavam somente vestígios de vaidade.
Eles ali diziam que o mundo lá fora era grande, nossa é muito grande, e você, você é o que? Você é um mísero fulano-de-tal filhinho de papai, você aí ta numa transição de ser gente e ser criança, ser criança, ta no processo de ser gente e ser desempregado. Você aí, você aí, coitadinho de você, você aí tem que correr pra não perder a vida que outros lá podem pegar. A sua vida tá competindo com a vida dele, e você tem que ser melhor, não tem vida pra todo mundo e o mundo lá fora é grande e cruel demais pra disponibilizar vida pra galera toda. Deixa de ser criança e empilha os tijolos da sua vida. Você tem que ser gente.
“Você não vai prestar a atenção?” Ela me disse mais uma vez, baixinho. “Eu to prestando”, e agora riscava os dedos com pinceladas de corretivo.