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quinta-feira, 7 de julho de 2011

texto sem título


O amor veio pra cá como algo triste.
Ele me limitou a somente amar
e então eu somente te amava
e tudo foi virando você e você foi se tornando o tudo de cada coisa
Eu me tornei por você e os outros estavam ali só pra lembrar que você não estava
O meu corpo foi sendo um molde pra sua chegada
Os meus cabelos só cheiravam a você
E quando eu me dei por mim você ia embora
E eu deixei de existir por não estar mais em nenhum lugar
E um amor perdido por aí
sem ter o que amar.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O lamento da concubina


Eu costumava pensar que talvez eu tivesse sim alguma espécie de prioridade, um espaço só meu que você guardasse só pra você e que não dividia com mais ninguém. Eu pensava que mesmo com tudo isso já completamente acabado eu tivesse sido uma boa memória, né, acho que você é uma boa memória pra mim.
Mas quando eu realmente me dou conta do quanto já se passou por aí, do quanto você já passou por aí, os bocados que eu fico sabendo de você, isso me machuca, ver você refazendo e revivendo coisas que eu achava que seriam somente comigo. Acho que você também conversa com os outros o que a gente costumava conversar, acho que você pega nos outros como pegava em mim, deve ter outros amigos que também te olham do mesmo jeito que eu olhava quando você se distraia.
Você já deve ter se desfazido de mim, eu sei que já, eu sei que eu já me fui em duzentos pedaços divididos entre duzentas noites, entre duzentas pessoas em milhares de movimentos. Eu sei que eu devo ter me dissolvido em filmes, eu sei que os meus suspiros e sorrisos devem ter sido esboçados por outras expressões. Eu sei que o que eu queria muito ter te dito naquela época provavelmente foi dito por outra pessoa em outra ocasião. Acho que eu já aconteci em você por outros meios.
Eu nunca te aconteci, afinal de contas.
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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Café minguante


Éramos nós duas, nós duas despejando nuvens que delineavam nossos "áureas" e elevavam os assuntos mais confortáveis e convenientes naquela hora da noite. Era cedo demais, não era? Cedo demais pra falar de mais tarde, cedo demais pra entender a solidão das baratas. Era cedo demais pra contar estrelas nubladas, muito cedo pra arrastar pantufas.
Mas ah, cá entre nós, sempre foi tarde pra enxergar o contorno das nossas nuvens fragmentadas. Isso, isso sempre foi mesmo.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Poeira cósmica



Por entre as frestas da persiana, nas linhas simétricas de luz bailavam pontos brancos como astros e estrelas em movimentos desorganizados, brilhantes, flutuando, caindo e voltando, girando com o movimento das mãos que tentavam apanhá-los. Fechava a palma e trazia para a sombra, mas já não estavam mais lá quando os dedos iam se abrindo um a um; Se desfaziam em faíscas de pôr-do-sol na janela da sala, seguiam a correnteza da cortina e dispersavam diante dos olhos nus, mesmo dos olhos despidos de qualquer formato geométrico.
O nome disso é poeira.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Corujinha, corujinha, que peninha de você


Gostava de dar a volta ao redor da casa, mesmo que o quintal fosse limitado num corredor minado por merda de cachorro e por gritaria dos vizinhos, sim, gostava de passar as mãos nas esburacadas e ásperas paredes, estas cinzas e vermelhas com pedaços de tijolos batidos expostos, sentir aquele cheiro de década passada, aqueles cacos de vidros enfileirado acima do muro e uniformizados de azul, verde, céu... Lá dentro já lhe chamavam; ela se escondia na aresta da parede, ria sozinha, olhava os arames e as portinhas, os chinelos jogados junto aos cachorros, o cachorro dormindo sob a guarda do chinelo.

Já começavam a vir passos que rastejavam as solas dos pés, chamavam “Menina!” e ela corria pelo outro lado; pelo outro lado quem sabe não seria pega, não seria pega pela merda e gritaria, pelo céu azul batido de nuvens ralas, a cadeira de balanço ninada pelo vento, os jornais rasgados rodopiando no chão e pelo cheiro de bolo que vinha na porta da cozinha, um cheiro que somente em suas narinas era peneirado de vestidos de bonecas e pipas azuis.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Osvaldo Faria, último ato.



Então tudo fez sentido. Os tijolos de memória foram se desembalando e desfazendo, e ele foi conseguindo sentir as explosões sinestésicas de nostalgia pelo corpo. Ficou um tempo encarando o armário aberto, as gavetas fechadas, os casacos no canto. Daniel se afastou uns dois passos, parou. Foi até a janela e deixou a luz do sol entrar pela persiana. Voltou ao armário. Olhou em volta, sem saber ao certo o que fazer. Aproximou-se do armário, passou a mão na sua madeira rústica. Virou de costas e sentou ali dentro, por baixo dos vestidos e camisas. O cheiro dos tecidos apertava ainda mais o seu retrocesso crônico. Dobrou as pernas, apertando-as contra a barriga, se escondeu ali dentro. O vão entre as portas deixava um feixe de luz entrar e iluminar somente um fio simétrico escorregando no seu rosto.
Lembrava de quando ouvia as pessoas lá fora gritarem seu nome, e ele se negava a responder, às vezes por preguiça, às vezes pra gerar uma certa preocupação, sentir que causava mistério. Ouvia as portas rangerem, os passos andarem incertos entre os corredores, a imagem das irmãs correndo em vultos no seu campo visual reduzido numa linha entre as portas do armário. Passava os dedos nas dobradiças internas do móvel, sentia fiapos, pedaços descascados. A madeira escura em contraste com a luz.
Uma sensação instabilidade crônica sugou de repente as suas idéias e pesou em todo o seu corpo físico, parecia mais pesado, mais próximo ao calor do chão, era aconchegante estar de volta, estar de volta com uma parte que ele não era mais.
Daniel mergulhou a mão no bolso e apanhou o maço. Pensou em acender um cigarro, mas achou que seria um ato ofensivo em respeito à sua infância e juventude. Mas em seguida logo veio um dane-se sussurrado pelo movimento dos lábios, acendeu um fósforo, encostou no cigarro e tragou profundamente. Pensou então que talvez quando tivesse na casa dos quarenta e voltasse ali, se lembraria da época em que o câncer não causava tanta preocupação. Ah, nem um pouco. Soltou a fumaça pela boca. Deixa passar, ele pensava, deixa o tempo passar, e ele ia passando, passando aos poucos, aos pingos de vento, às planícies febris de memória infantil, ia passando, impregnando o cigarro nos casacos e tecidos suaves, as camisolas da falecida e às cartas guardadas nos bolsos dos paletós paternos.