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sexta-feira, 30 de maio de 2014

uma carta

                                                                               

                                                             João Pessoa, 28 de dezembro de 2013


Queridx A.


Prometi à minha orientadora que leria as cartas trocadas entre Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro antes do dia primeiro do próximo ano; no entanto, fiquei a vaguear vários dias, o que de certo não me queixo, acho que realmente precisava… Mas eis que agora corro contra o tempo, são muitas as cartas e estou ainda entre as primeiras. A relevância de te falar isso, calma queridx amigx, logo explicarei.
Minhas primeiras leituras das correspondências confesso que as achei desagradáveis; Pessoa e Sá-Carneiro eram poetas geniais, no entanto pareciam – pelas pistas das cartas de Sá-Carneiro ao Pessoa – que o sabiam demais; sabiam que eram bons, e por isso mesmo não dedicavam sua vida à nenhuma outra atividade que senão falar de si mesmos e de suas obras.
No entanto, enquanto avançava nas leituras, fui percebendo o que de fato significavam aquelas correspondências, a sensibilidade daquelas palavras.
Sá-Carneiro dedicava-se muito às cartas, escrevia com um intervalo de dois dias ao Fernando Pessoa e sempre pedia que o respondesse o mais rápido possível.
As cartas, muito além de serem apenas material de análise literária e um grande suporte para compreender a visão dos modernos com relação ao seu tempo contemporâneo, são acima de tudo, correspondências pessoais: ali se configura o único veículo de comunicação entre dois grandes amigos. Vejo Sá-Carneiro, inseguro, pedindo a opinião de Pessoa, a dizê-lo coisas banais da vida, sua indisposição, a felicidade de pequenas coisas, as suas saudades.
Hoje, lavando a louça e pensando nas cartas, fiquei emocionada. Como é bom ter um amigo a quem podemos falar! Digo falar do que nos mais importa. A eles, o que mais importava era a poesia: pela poesia viviam, por ela morreram e era ela inclusive que os unia.
Pensei em você… Gostaria de comentar a alguém sobre as cartas, sabe? Mas sei que não é bem muito do interesse do pessoal daqui.
Sinto sua falta. De conversarmos ao pé da porta. Você sempre se interessava… E eu me interessava pelas suas coisas também. Acho lindo o ultimo verso que Pessoa fez num poema pro Sá-Carneiro:

O amigo como esse que ao falar amamos

Sempre penso em você quando leio esse verso. Quando nos conhecemos, eu dizia aos meus amigos que tínhamos o mesmo coração. Ainda acho isso, mas hoje acredito que nossos corações possuem paixões diferentes.
Me sinto sozinha por aqui também. Gosto de ficar no mar suspensa com os olhos fechados, as ondas me levantando e descendo… Como se eu fosse o mar também.
A distância que tenho em mim do sudeste ora me faz sentir que desapareci. Sei que estou sumindo, realmente. Acredito que estou ranzinza, A.
Esse ano para mim foi regido pelo signo de virgem, era um ano de limpeza e purificação. Acredito que me limpei de coisas que já não me são mais necessárias, me retrai, isolei, não me arrependo, me fez bem, mas é claro, tudo tem uma conseqüência.
Me sinto menos procurada… Quando você deixa de se importar com as pessoas elas certamente deixam de se importar com você.
Fiquei triste com isso… Tenho a sensação de que sou tão vã, qualquer hora, em qualquer ventania, desapareço.
Um dia x P. me disse que o que nos fazia existir era a força da memória e da saudade. O morto pode estar morto, mas só deixa de existir quando ninguém mais o lembra.
Seria possível, então, alguém já não mais lembrado desaparecer ainda em vida?
Bom, se não te chatear, me agradaria bastante um retorno seu.  

Um abraço inteiro desta sua saudosa amiga,
                                                                                   M.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

texto sem título


O amor veio pra cá como algo triste.
Ele me limitou a somente amar
e então eu somente te amava
e tudo foi virando você e você foi se tornando o tudo de cada coisa
Eu me tornei por você e os outros estavam ali só pra lembrar que você não estava
O meu corpo foi sendo um molde pra sua chegada
Os meus cabelos só cheiravam a você
E quando eu me dei por mim você ia embora
E eu deixei de existir por não estar mais em nenhum lugar
E um amor perdido por aí
sem ter o que amar.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O romance das bambinas em quatro partes

I
Eram três cachorros numa casa de três filhas. Naturalmente, uma cuidava de cada um, seu respectivo, pela idade. Mas a irmã mais velha já não morava mais na casa, de forma que só voltava pra visitar os pais e colocar o assunto em dia com as demais irmãs. De vez em quando de manhã fazia carícias no cachorro mais velho.
Um dia o cachorro mais velho começou a mancar, mas era apenas mal jeito na patinha traseira. Era o que elas diziam.
II
A irmã mais velha começou a namorar e demorar mais para voltar e as duas irmãs mais novas ficavam um pouco aborrecidas com isso.
Os cachorros mais novos também ficaram um pouco aborrecidos com as patinhas tortas do mais velho, já que não podiam brincar mais.
O cachorro mais velho mancava cada vez mais, e daí, de repente, seu pêlo começou a cair. Seu pêlo começou a cair e surgiram cicatrizes e feridas no seu corpinho peludo e diminuto. Ele foi diminuindo, não latia mais, ficava quietinho atrás do carro. Os demais cachorros tomaram a frente da casa de forma que o mais velho não tinha mais espaço.
As irmãs mais novas achavam que os outros cachorros estavam maltratando o mais velho. Mas a irmã mais velha não achava, pra falar a verdade, ela não achava muita coisa.
III
Um dia a irmã mais velha foi sair pra ver seu namorado e sem querer acabou atropelando o cachorro mais velho. Então ele morreu.
IV
As irmãs mais novas culparam a mais velha daquele assassinato todo. Mas irmã mais velha, em defesa, disse que foram os cachorros mais novos.
Os cachorros mais novos somente sentiram falta do mais velho quando não puderam mais brigar para pegar os restos de ração na vasilha do mais velho, porque depois disso, a vasilha permaneceu vazia, só se enchia com água quando chovia e esvaziava novamente, quando fazia sol.

domingo, 12 de dezembro de 2010

sunday afternoon

Um dia eles me disseram que todo sol é um pouco de ontem.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O lamento da concubina


Eu costumava pensar que talvez eu tivesse sim alguma espécie de prioridade, um espaço só meu que você guardasse só pra você e que não dividia com mais ninguém. Eu pensava que mesmo com tudo isso já completamente acabado eu tivesse sido uma boa memória, né, acho que você é uma boa memória pra mim.
Mas quando eu realmente me dou conta do quanto já se passou por aí, do quanto você já passou por aí, os bocados que eu fico sabendo de você, isso me machuca, ver você refazendo e revivendo coisas que eu achava que seriam somente comigo. Acho que você também conversa com os outros o que a gente costumava conversar, acho que você pega nos outros como pegava em mim, deve ter outros amigos que também te olham do mesmo jeito que eu olhava quando você se distraia.
Você já deve ter se desfazido de mim, eu sei que já, eu sei que eu já me fui em duzentos pedaços divididos entre duzentas noites, entre duzentas pessoas em milhares de movimentos. Eu sei que eu devo ter me dissolvido em filmes, eu sei que os meus suspiros e sorrisos devem ter sido esboçados por outras expressões. Eu sei que o que eu queria muito ter te dito naquela época provavelmente foi dito por outra pessoa em outra ocasião. Acho que eu já aconteci em você por outros meios.
Eu nunca te aconteci, afinal de contas.
.

domingo, 31 de outubro de 2010

Café da tarde

Ela secou as mãos no avental, ela amassava os dedos no tecido e arranhava sutilmente as unhas no pano. Mergulhou a mão esquerda no bolso da calça e tirou aquele maço prensado e magro, quase que só era papel; em seguida prendeu um cigarro entre os lábios, acendeu com um isqueiro laranja e jogou ambos, o maço e o isqueiro, sincronizadamente sobre a mesa. Tragou a primeira vez, ergueu o rosto pra mim e movimentou a cabeça de modo que a franja se deslocou para o lado: uma mecha fez uma curva mais aberta e permaneceu acima do restante dos fios. Ela soprou a fumaça para cima, aquela fumaça fez piruetas no ar e deixou fosca a luz que delineava as panelas no fogão ali atrás. Agora ela me olhava.
- Acho que já sei exatamente o que tem me incomodado. Acho que agora podemos discutir direito, sem divagar, sem falar merda.
E depois eu só ouvi a fumaça que tragava ela. Mais nada.

sábado, 7 de agosto de 2010

Gerúndio finito


Um dia ela me disse que era para deixar as coisas simplesmente acontecerem. Simplesmente, acontecerem. Sensato, não? Uma alternativa poeticamente sensata de cometer uma dúzia de devaneios e culpar o “aconteceu”, “foi sem querer”, “era maior do que eu”, “foi mal, aconteceu”. E eles vão acontecendo, um atrás do outro, e eu, sendo um decente amante da liberdade de sentimentos e relações abstratas, deixo acontecer e penso, poxa, aconteceu.
Então é isso, é só deixar acontecer, certo? É, só isso. Mas me diz, como que posso simplesmente deixar acontecer o que eu venho planejando minuciosa e secretamente, compondo com todos os detalhes e notas dessa espécie de ópera sustentada por tons românticos e melodias humildes; Como que eu posso deixar simplesmente acontecer o que eu venho cogitando com tantos ângulos e alternativas, acontecer assim, e somente deixar acontecer? Acontecer e terminar, e acabar e ir embora e nunca mais ter uma minúscula possibilidade de acontecer do jeito que deveria (ou que poderia, talvez) acontecer.
Então me diz, você realmente acha que eu posso deixar acontecer o que vem acontecendo em mim quase que o tempo todo?

terça-feira, 18 de maio de 2010

Tem certeza que deseja deletar este arquivo?



Do que adianta você me oferecer essa eternidade toda? O que eu faço com ela depois? Você diz que tudo acabou pra sermos eternos, e que cada segundo do passado vai continuar acontecendo lá atrás, numa redundante ação de verbos conjugados no infinitivo, indo e retornando, acontecendo pra sempre. Do que adianta, me diz? Do que adianta ser sua no meu passado e hoje já não possuir mais nenhuma relação “piegas” com você? Do que adianta te preservar assim, intacto e parnasiano, e hoje enxergar suas rugas quando você sorri de longe, observar as suas atitudes imaturas e assim conseguir modificar o que já foi, reconhecer o que você não era e que eu mesma, tapada de amor, me recusava a enxergar...? Do que adianta, meu deus?! Me diz, sério, eu quero que você me explique, por que valorizar assim tanto o que já fomos se isso vai se perder, e vai se diluir, e mais tarde vai se modificar porque eu vou esquecer que você tinha alface entre os dentes quando foi dizer que me amava, e daí eu vou pensar que foi tudo lindo, mas não foi, aliás, foi ridículo. Desculpa, foi mesmo.
Se for pra terminar, diz assim “você já não me agrada mais” tudo bem, qual argumento eu vou ter pra isso também, né? Nenhum, oras, o que eu posso fazer se já acabou e ta mesmo nessa merda toda, você também anda chato demais, reclama de tudo, mas tudo bem, não, não vamos discutir isso outra vez, eu já sei, é, eu já sei, já sei... Eu sei que eu to chata também, tudo bem, a gente já falou disso. Tudo bem.
Ah, quer saber, tudo bem é o caramba, enfia essa “eternidade” no cu, romanticozinho de merda. E vai se foder também.

domingo, 16 de maio de 2010

A humanidade inteira dela



Bom dia amor, eu te amo, deixei pães na mesa e o leite no fogão, e eu te amo, ta? Vou chegar um pouco tarde, mas você já sabe, eu te amo, qualquer coisa pode ligar no meu número por que tipo assim, eu te amo, e se tiver desligado você sabe qual é o motivo, te amo e vou estar na reunião, já te disse né? Que eu te amo, e a reunião de hoje e tal... Tenha um bom dia! Te amo e chego à noite, talvez eu traga algum te amo filme pra gente assistir junto antes de dormir, ok? Beijo amor, te amo. Te amo. Eu