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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

os invasores nobres


Eles estão ali, no interior da fechadura. Estão na rachadura dessas paredes, esses insetos, esses aracnídeos, essas espécies todas, rastejam por trás das caixas de papelão no canto do quarto, corroem esse armário e nadam na poeira das gavetas. Eles se multiplicam, eles se expandem nos alicerces, me observam trocar de roupa e acompanham minha insônia. Às vezes sem querer a gente se encontra, e nesses desencontros eu retiro eles daqui, imagina só, invadindo meu quarto assim.
Na verdade eu nem do tempo direito pra eles dizerem educadamente pra eu me retirar, por favor, está atrapalhando o convívio e harmonia da comunidade. E então eles agradeceriam, “muito obrigado”.

Fubá de deus


Talvez eu realmente não saiba o que é de fato respirar. É muito provável que eu simplesmente respire e cumpra essa tarefa constantemente sem nem ao menos senti-la; é sim, bem provável de eu nunca ter me visto, claro que é, eu nunca ter me olhado no espelho no ângulo em que as pessoas mais me notam. É bem provável de eu nunca ter percebido que todas as manhãs alguém me nota no caminho da escola, provável também de eu nunca ter notado ninguém de verdade. A probabilidade de eu nunca ter gostado de alguém sem que meu ego esteja no meio disso tudo é, dona Neusa, muito grande.
Mas vou te dizer, posso não enxergar tudo isso, mas dona Neusa, eu reconheço esse seu bolo de fubá. Eu sinto ele, degusto ele e sinto ele se dissolver nas paredes da minha boca como se fosse um beijo de deus. Olha, uma delicia, a senhora ta de parabéns, viu.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Adágio lamentoso

     
     Um dia a orelha de todos nós estará ocupada permanentemente por dois fones cravados e fixados nos tímpanos. Então, nesse dia, o motorista do ônibus não terá percebido que a roda furou porque estará comovido demais no ápice da Sinfonia n.º 6 de Tchaikovsky, muito menos os passageiros, concentradíssimos e obedientes perante a cascata de notas que entupirão seus ouvidos. 
      Nesse dia também não haverá mais notícias e aí sim perderemos todo o interesse e prazer existencial de terminar o jantar ao som do casal Bonner contando que mais trinta morreram no acidente de um ônibus. Só se faltarem aos telespectadores fones de ouvido decentes ou intensidades sonoras consideráveis, né. Pobrezinhos.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Janelas opostas


Elas esperavam um bom dia pra se ver, um dia assim, meio solto, com o céu bonito, todo azul com nuvens ali e aqui, sabe aquelas nuvens massudas? E um sol estupendamente quente e distante, só para enfeitar o azul, com um vento gostoso que aliviasse o calor. Elas queriam se encontrar só se fosse com uma tarde calma, embaixo da sombra de uma árvore, um dia em que acordassem com a pele mais bonita, quem sabe, a voz mais firme o corpo mais disposto; elas queriam se encontrar num dia com ar otimista, um dia com uma cor sutilmente romântica, um dia de grama verde, um dia em que não houvesse caos nas ruas. Um dia em que todos eles fossem gentis, que fosse melhor, que tudo se ajeitasse num jeito típico de dezembro em pleno julho úmido e gelado.
Elas, mesmo assim, esperavam e continuavam esperando. Até que elas não se viram.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Realismo piegas


Ela suspirou como se procurasse por ar, e numa progressão intensa de sentimentos efêmeros e explosivos, o fluxo das palavras começou a descer da sua garganta e preencher os seios, escorregou pela curva da cintura e aqueceu a virilha. Torcendo as pernas ela pôde conter a maresia de sensações internas transmitidas pela carta que erguia com as mãos, em seguida apoiou os cotovelos no parapeito da janela, afastou a cortina e sustentou a cabeça em uma das palmas, piscando num movimento lento e atritando suavemente as pernas uma na outra.  
Longe, longe... Talvez mais próximo do que a proporção dos suspiros com os olhos procurando longe ali na janela. Talvez tão distante quanto a conexão pulsante do peito com aquele nó se desfazendo entre as pernas; talvez, talvez estivesse ali, lá e ali, tão mais aqui do que aquela ausência – cuidadosamente delineada com tinta no contorno das palavras – podia pontuar com batidas melancólicas no intervalo das horas.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Espuma vermelha




Nos últimos dias Maria andou esquisita. Zanzava pela casa aos suspiros, movimentando as pernas num gesto lento, como se as solas nuas dos pés beijassem o assoalho a cada passo quente pelo corredor.
Alisava a curva dos seios com a mão; fechava os olhos e mordia os lábios, se perdendo numa de suas ilusões enquanto dava impulsos com os dedos dos pés no chão, um vai-e-vem sutil no balanço da rede, acabava por se ninar.
Estendia os lençóis brancos no varal enquanto o vento a envolvia, e o vestido escarlate refletia ao sol um vermelho vivo, como se refletisse o calor interno de seu corpo.
Suas mãos deslizavam nos objetos da casa, paredes, percorriam curvas imaginárias formando serpentes invisíveis no ar. Prendia os cachos num laço frouxo no alto da cabeça e deixava algumas mechas desobedientes caírem sobre o rosto e por cima da nuca. Suava flores, sorria nuvens.
O marido não entendia. Falava com ela e ela escutava somente zunidos. Respondia em frases monossilábicas, com um ar tão natural, como se nada lhe importasse mais. Deitavam juntos e ele não sentia a presença dela por perto, como se Maria percorresse os cômodos vazios da casa enquanto ele apertava sua mão. Tomava banhos regados de cantigas e não se incomodava com a presença do marido em casa. Ele ali, aqui, ou lá, tanto fazia, sua imagem na poltrona lendo jornal ou no pé da mesa exigindo um café mais forte já era uma preocupação descartada para Maria.
Ela continuava a ferver água e enxugando os dedos no avental, olhava pela janela, quanto verde lá fora!... Verde, verde, azul no céu, algodão se desfazendo... Maria ficava imaginando que tocar na superfície das nuvens deveria ser a mesma sensação que sentir o limite da água e da espuma em banho de banheira. A espuma leve, não se misturava com a água de jeito nenhum. Nuvem também deve ser assim, ela pensava. Leve demais pra se misturar com a gente.
Um dia o marido chegou do trabalho e chamou por ela. Ninguém respondia. Foi em direção a cozinha e cortou um pedaço de bolo em cima da mesa. Ainda mastigando, ele gritava “Maria!” e ninguém, nada, nem mesmo um burburinho correspondia seu chamado. Andou pelo corredor chamando, olhando cada quarto, mas nada dela. Em cima da cama, somente o avental.
Da janela do quarto pôde enxergar a silhueta do corpo dela despido de qualquer pano se movimentando para longe, cada vez mais longe, os lençóis ora ou outra se sobrepunham sobre sua sombra, um verde imenso mais pra frente, mais além somente azul, azul e nuvens. Ela ia embora, Maria ia embora entre passos arrastados, entre o movimento das mãos roçando as coxas, entre o vento que brincava com o cabelo, arrepiava a penugem do corpo e contraia o broto dos seios.
Leve demais para se misturar com gente, ela pensava com os olhos virados para o céu, era leve demais.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Insônia no lado direito



Eu sou solteiro, mas comprei uma cama de casal. O meu quarto – de solteiro – agora é preenchido por um colchão gigantesco (para casal). Quando eu me deito fico em dúvida: direito ou esquerdo? Costumava sempre esticar o corpo no lado esquerdo, mas daí o direito ficava ali, frio, frio, e era como se o calor do meu corpo – no lado esquerdo – fosse menor que o frio do lado direito, e a ausência do lado direito invadia o meu lado esquerdo, o meu calor se esfriava (ou será que se distribuía, numa tentativa de equilíbrio térmico?) e a minha cama de casal inteira congelava embaixo de mim.
A minha roupa de cama (para casal) não possuía nenhum cheiro feminino ou fios de cabelo longo. Nenhuma mulher lavava meus cobertores (de casal). Eu levava numa lavanderia as quartas e borrifava um perfume de mulher no lado direito quando esticava os lençóis por cima do colchão. Quem sabe assim ele esquenta, eu pensava. Mas não esquentava.
O lado direito parecia maior. O lado direito era maior. O lado direito da minha cama (de casal) era mais largo, era mais volumoso, era abandonado. O lado direito sempre estava esticado, e o lado direito permanecia intocável com seu cheiro de sabão em pó e amaciante. O lado direito da minha cama de casal começou a me incomodar.
No início eu esquecia xícaras de chá e relatórios para ler antes de dormir. Um livro de auto-ajuda no canto mais embaixo, revistas, salgadinhos, meias, gravatas, canetas abaixo do travesseiro, pastas, réguas, telefone, celular, laptop, o que fosse cabendo até o cheiro do lado feder a amendoim mofado, meias molhadas, chamadas não atendidas e conhecimento eletrônico inútil. O lado direito da minha cama (de casal, não se esqueça) foi ficando cheio, foi se enchendo de mim mesmo, foi se completando pela minha desorganização afetuosa e eu, comigo mesmo, dormia quentinho e aconchegante embrulhado por um cobertor – de casal, claro – que me envolvia e era coberto, no lado direito, pelo meu calor desleixado. E a cama de casal todinha ficava cheia de mim.
Um dia o lado direito começou a se expandir. Não eram mais somente xícaras; garrafas térmicas, no princípio, ficavam ali caso o café acabasse na minha caneca, depois retornavam à cozinha. Mas daí eu esquecia elas no lado direito e adormecia. Minhas bolsas se encaixavam nos vãos ainda vazios do lado direito, meus gráficos, as inúmeras canetas perdidas nas profundezas do lençol do lado direito, tudo foi completando o lado direito de modo que visualizar a minha cama de casal não era mais tão simples assim, não era mais uma cama de casal, era o lado direito, e o lado direito foi invadindo tudo, cada pedacinho do esquerdo agora era um pouco direito, então não existia mais nada além do domínio direito, nada mais, não havia mais coberta nem travesseiro para mim. O lado direito era um casal sozinho.
Durante um tempo, enquanto eu repensava sobre a situação de perda total de um território do meu lar, fui me ajeitando e acomodando durante semanas naquele sofá limitado em que meus pés ficavam para fora. Ficava refazendo na cabeça, durante a noite, como que o lado direito agiu durante seu golpe silencioso de triunfo sobre o quarto; geralmente a insônia vinha massagear meus pés congelados. Eu dormia mal, eu não dormia.
O silêncio da sala começou a me penetrar e eu me sentia invadido pela ausência de som. A TV passou a madrugar comigo, mas era tão entediante, poucos canais, ficava rodeando e voltando sempre para os meus programas, o mesmo burburinho. Nada de mais.
E então eu comprei o pacote família na TV a cabo. E eu, divorciado com a cama de casal, mudava os meus canais, todos os meus canais do pacote família, e a voz da TV me completava de modo espontâneo. Minha televisão companheira, meus sussurros do pacote família, meu lado direito sonoramente febril. Meu pacote, minha programação (em família, por favor).