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quinta-feira, 7 de julho de 2011

texto sem título


O amor veio pra cá como algo triste.
Ele me limitou a somente amar
e então eu somente te amava
e tudo foi virando você e você foi se tornando o tudo de cada coisa
Eu me tornei por você e os outros estavam ali só pra lembrar que você não estava
O meu corpo foi sendo um molde pra sua chegada
Os meus cabelos só cheiravam a você
E quando eu me dei por mim você ia embora
E eu deixei de existir por não estar mais em nenhum lugar
E um amor perdido por aí
sem ter o que amar.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Reflorestamento do tédio


Eu tenho a leve impressão de que às vezes, enquanto e durante o tempo em que meus olhos se perdem na brancura do teto com o limite sujo da parede, que ao meu lado, embaixo e em todo o meu redor brotam plantas, ramos que se expandem pelos móveis e inclusive se apoiam nos meus pés esticados no comprimento da cama. E eu continuo pensando e roendo as unhas, meus cabelos crescem e brotam juntamente ao habitat e cá continuo, as unhas vão alongando e o meu corpo depilado já começa a florescer outra vez e ainda estou aqui, as unhas pretas, o quarto amarelado, uma trepadeira avançando já pelo corredor e galhos tomando sol sob a janela, gramíneas colorindo o assoalho de verde e minuciosas flores aqui e ali, tímidas e murchas.
Então quando eu suspendo a cabeça pra dar uma bisbilhotada ao meu redor, eu chego à conclusão de que eu sou a rainha da floresta coroada por várias margaridas costuradas em ramos e raízes. Essa sou eu, a rainha da floresta. 
Espera, acho que não era isso o que eu queria dizer.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O romance das bambinas em quatro partes

I
Eram três cachorros numa casa de três filhas. Naturalmente, uma cuidava de cada um, seu respectivo, pela idade. Mas a irmã mais velha já não morava mais na casa, de forma que só voltava pra visitar os pais e colocar o assunto em dia com as demais irmãs. De vez em quando de manhã fazia carícias no cachorro mais velho.
Um dia o cachorro mais velho começou a mancar, mas era apenas mal jeito na patinha traseira. Era o que elas diziam.
II
A irmã mais velha começou a namorar e demorar mais para voltar e as duas irmãs mais novas ficavam um pouco aborrecidas com isso.
Os cachorros mais novos também ficaram um pouco aborrecidos com as patinhas tortas do mais velho, já que não podiam brincar mais.
O cachorro mais velho mancava cada vez mais, e daí, de repente, seu pêlo começou a cair. Seu pêlo começou a cair e surgiram cicatrizes e feridas no seu corpinho peludo e diminuto. Ele foi diminuindo, não latia mais, ficava quietinho atrás do carro. Os demais cachorros tomaram a frente da casa de forma que o mais velho não tinha mais espaço.
As irmãs mais novas achavam que os outros cachorros estavam maltratando o mais velho. Mas a irmã mais velha não achava, pra falar a verdade, ela não achava muita coisa.
III
Um dia a irmã mais velha foi sair pra ver seu namorado e sem querer acabou atropelando o cachorro mais velho. Então ele morreu.
IV
As irmãs mais novas culparam a mais velha daquele assassinato todo. Mas irmã mais velha, em defesa, disse que foram os cachorros mais novos.
Os cachorros mais novos somente sentiram falta do mais velho quando não puderam mais brigar para pegar os restos de ração na vasilha do mais velho, porque depois disso, a vasilha permaneceu vazia, só se enchia com água quando chovia e esvaziava novamente, quando fazia sol.

domingo, 12 de dezembro de 2010

sunday afternoon

Um dia eles me disseram que todo sol é um pouco de ontem.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O lamento da concubina


Eu costumava pensar que talvez eu tivesse sim alguma espécie de prioridade, um espaço só meu que você guardasse só pra você e que não dividia com mais ninguém. Eu pensava que mesmo com tudo isso já completamente acabado eu tivesse sido uma boa memória, né, acho que você é uma boa memória pra mim.
Mas quando eu realmente me dou conta do quanto já se passou por aí, do quanto você já passou por aí, os bocados que eu fico sabendo de você, isso me machuca, ver você refazendo e revivendo coisas que eu achava que seriam somente comigo. Acho que você também conversa com os outros o que a gente costumava conversar, acho que você pega nos outros como pegava em mim, deve ter outros amigos que também te olham do mesmo jeito que eu olhava quando você se distraia.
Você já deve ter se desfazido de mim, eu sei que já, eu sei que eu já me fui em duzentos pedaços divididos entre duzentas noites, entre duzentas pessoas em milhares de movimentos. Eu sei que eu devo ter me dissolvido em filmes, eu sei que os meus suspiros e sorrisos devem ter sido esboçados por outras expressões. Eu sei que o que eu queria muito ter te dito naquela época provavelmente foi dito por outra pessoa em outra ocasião. Acho que eu já aconteci em você por outros meios.
Eu nunca te aconteci, afinal de contas.
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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

ensaio sobre o esboço


Ele já havia desistido de existir faz tempo
o seu ser foi se tornando um sendo
e foi indo, e foi sendo um indo durante um tempo
e todo o tempo então foi sendo
tão real quanto o existir.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Descostura


Parecia mesmo era que a minha cintura iria se desprender, se descosturar todinha de mim e cair no chão que nem um pedaço de pano velho. Eu então seria mais leve, tão mais leve e tão menos mulher.

sábado, 7 de agosto de 2010

Gerúndio finito


Um dia ela me disse que era para deixar as coisas simplesmente acontecerem. Simplesmente, acontecerem. Sensato, não? Uma alternativa poeticamente sensata de cometer uma dúzia de devaneios e culpar o “aconteceu”, “foi sem querer”, “era maior do que eu”, “foi mal, aconteceu”. E eles vão acontecendo, um atrás do outro, e eu, sendo um decente amante da liberdade de sentimentos e relações abstratas, deixo acontecer e penso, poxa, aconteceu.
Então é isso, é só deixar acontecer, certo? É, só isso. Mas me diz, como que posso simplesmente deixar acontecer o que eu venho planejando minuciosa e secretamente, compondo com todos os detalhes e notas dessa espécie de ópera sustentada por tons românticos e melodias humildes; Como que eu posso deixar simplesmente acontecer o que eu venho cogitando com tantos ângulos e alternativas, acontecer assim, e somente deixar acontecer? Acontecer e terminar, e acabar e ir embora e nunca mais ter uma minúscula possibilidade de acontecer do jeito que deveria (ou que poderia, talvez) acontecer.
Então me diz, você realmente acha que eu posso deixar acontecer o que vem acontecendo em mim quase que o tempo todo?

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Subúrbio domicilar


Me disseram que perder o tempo é acordar quando o sol já indica o meio do dia lá no lado de fora da janela enquanto você continua amassando o colchão e insiste em permanecer ali com uma energia de insônia diurna. Então, enfim, arrasta os pés e o corpo e você, todo enrugado de sono e marcado da incrível noite de amor com o travesseiro babado e o cobertor selvagem, caminha em direção a cozinha e mastiga alguma coisa em intervalos de suspiros, acrescenta uma musica pra quem sabe, se sentir mais descontraído com a sua situação confortavelmente deprimente de uma noite preenchida por downloads e vanilla sky dublado na tnt.
Ah, é isso, você pensa, enquanto encara a janela com o sol alinhado no centro do céu, olha lá, já ta acontecendo. As pessoas já tão caminhando lá na rua e fumando cigarros, já almoçam, alguns já dão o cochilo da tarde e outros já planejam o dia seguinte. E você? Você com suas meias de lãs vai deslizando no assoalho e senta a sua bunda gelada em frente ao computador. Estica os pés por cima da mesa, olha pela janela. O sol continua no mesmo plano.
Perder tempo, como vocês dizem, digamos que seja basicamente isso. Mas sabe, pra mim o sol sempre esteve ali, no mesmo lugar, durante toooooodo o dia.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Realismo piegas


Ela suspirou como se procurasse por ar, e numa progressão intensa de sentimentos efêmeros e explosivos, o fluxo das palavras começou a descer da sua garganta e preencher os seios, escorregou pela curva da cintura e aqueceu a virilha. Torcendo as pernas ela pôde conter a maresia de sensações internas transmitidas pela carta que erguia com as mãos, em seguida apoiou os cotovelos no parapeito da janela, afastou a cortina e sustentou a cabeça em uma das palmas, piscando num movimento lento e atritando suavemente as pernas uma na outra.  
Longe, longe... Talvez mais próximo do que a proporção dos suspiros com os olhos procurando longe ali na janela. Talvez tão distante quanto a conexão pulsante do peito com aquele nó se desfazendo entre as pernas; talvez, talvez estivesse ali, lá e ali, tão mais aqui do que aquela ausência – cuidadosamente delineada com tinta no contorno das palavras – podia pontuar com batidas melancólicas no intervalo das horas.

domingo, 11 de abril de 2010

Quadrilha individual



Em ramos descentralizados no interior dos meus braços se apertam nós frouxos, puxando uma linha emaranhada no centro do peito. O corpo todo, esticado, reproduz reflexos interiores tentando afrouxar, afrouxando em esqueletos de borboletas e pétalas de rosas dissecadas. Os movimentos agora são limitados, as asas das borboletas escarlates e das rosas com pontas secas exalam putrefação, vão preenchendo cada curva e espaço dentro de mim, saem pelas minhas narinas e pelo movimento da língua. Eu te transmito meus nós, torço meu íntimo e meus segredos contorcidos, veja bem, você sente? Você enxerga? Você inalou meu cheiro, apalpou minhas palavras ásperas? São essas, são essas as que me fazem ser um desencontro; sim, um desencontro planejado minuciosamente por criaturas silenciosas e travessas, elas que circundam meus sonhos mais aconchegantes e que sussurram pelos meus lábios mistérios sujos e barrocos.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Brilha, brilha



Abaixo dos cílios inferiores derretia o grafite macio e negro do lápis, desenhando numa simetria perfeita, o contorno e a profundidade do rosto; as olheiras profundas, ainda mais profundas agora, se escureciam pelos vestígios da maquiagem. A penugem da face parecia escondida e penteada por uma camada grossa e suada de corretivos; o batom borrava no canto dos lábios um vermelho barato e os poros se abriam, a expressão tentava respirar algum pouco que fosse de naturalidade. Olha pra mim, ela pensou, meu nome é estrela.