Deitaram os dois um ao lado do outro suspirando ofegantes e procurando por ar como se não houvesse ar o suficiente no recinto. Os dois corpos ficaram assim, um ao lado do outro, respirando de maneira desritmada até que o rapaz tentou ficar no mesmo ritmo que o da moça talvez com a intenção de aproximar os dois, como quem diz olha como somos parecidos, até respiramos igual. A moça, naturalmente, ignorou os esforços do rapaz e continuou respirando na dela, perdida num olhar arrastadamente distante no teto tingido com listras laranjas que saiam da veneziana da janela e lambiam, trêmulas, as paredes brancas. Era uma daquelas tardes terrivelmente quentes em que as entranhas do corpo fervem, o corpo transpira certa umidade morna e tudo que é mais desejado é somente realização de uma troca de calor com algo que esteja situado numa temperatura inferior.
E então, quando a euforia já passava, suspendeu-se entre os dois o fracasso da terrível relação recém realizada naquele corpo quente dela com o fervente dele. Ambos havia se satisfazido, porém não sabiam ao certo se chegaram ao orgasmo por uma excitação misteriosa que se revelou interiormente no singular dos intestinos de cada um ou se juntos os dois trabalharam de forma árdua, insistiram já frustrados, e conseguiram após cozinhar os corpos um no outro culminar num inevitável e triste ápice, num êxtase obvio, mínimo. Ele agarrou as mãos dela apelando para o amor. Ela deixou preencher seu consolo com o amor, e o sentimento todo refez o ato em suas cabeças como que algo bem sucedido. O amor era bem sucedido.
Ela sorriu para cima, para o teto, sou amada. Ele então sentiu que já podia destrançar seus dedos dos dela, pronto, já a amo, já é o suficiente, licença, e abanou com as mãos o rosto na tentativa de refrescar alguma coisa que seja naquele lugar.
domingo, 8 de abril de 2012
segunda-feira, 25 de julho de 2011
A ambiguidade entre as palmas e o punho
para Ana Araújo e Clara Lazarim
Ela projetava o amado num encaixe perfeito em seu corpo, a ciência mesma já disse que os corpos humanos possuem encaixes impecavelmente calculados como se os amantes se pertencessem no leito amoroso, foi o que uma vez a disseram. Então o amado enfim a chegava silencioso e transbordante, venha cá, e ela ia toda caprichosa tentado desfazer de si toda timidez e encanto feminino, olhe pra mim, ela conduzia, olhe só como eu sou toda incompleta esperando por tanto tempo a sua chegada. Ele então se hospedava, a principio, com os dedos e palmas abertas e a envolvia como num abraço de amantes saudosos e emocionados de tanto amar, mas o abraço já era sufocante por um momento e de repente por mais outro. Ele então virou o rosto dela para o lado, fique quietinha, e a limitou da única visão da parede e ela olhava e já não podia mais ver o amor que ele realizava ali, que ele praticava nela, já não realizava, já não era mais amor, e continuava olhando pra parede sem participar de amar e então fechava os olhos pra já não ver e o que sentia também tentava não sentir mais.
No corpo, somente sua palma frágil e delicada conseguiu se encaixar fracassadamente no punho, que mais tarde, foi o que menos causou a dor.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
texto sem título
O amor veio pra cá como algo triste.
Ele me limitou a somente amar
e então eu somente te amava
e tudo foi virando você e você foi se tornando o tudo de cada coisa
Eu me tornei por você e os outros estavam ali só pra lembrar que você não estava
O meu corpo foi sendo um molde pra sua chegada
Os meus cabelos só cheiravam a você
E quando eu me dei por mim você ia embora
E eu deixei de existir por não estar mais em nenhum lugar
E um amor perdido por aí
sem ter o que amar.
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segunda-feira, 9 de maio de 2011
encaixe desproporcional
Às vezes eu não sei ao certo se a casa é minha ou dos móveis que eu coloquei nela. Parece que eles dominam melhor, se adaptam melhor, não há como negar a intimidade do abajur com a mesa, do tapete com o chão, em contraste com a péssima relação que eu tenho com a minha cama, que range pra que eu caia de noite, quase sacode pra me ver no chão.
E as louças? Empilhadas uma a uma olhando pra mim com uma expressão suja. Inclusive as roupas, até elas, que vestem melhor no guarda roupas do que em mim. Pensei que os móveis estivessem aqui só pra melhorar e organizar a minha vida, mas acho que isso não aconteceu.
Hoje em dia o mundo é assim, né. Ta feio o negócio.
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quarta-feira, 2 de março de 2011
Reflorestamento do tédio
Eu tenho a leve impressão de que às vezes, enquanto e durante o tempo em que meus olhos se perdem na brancura do teto com o limite sujo da parede, que ao meu lado, embaixo e em todo o meu redor brotam plantas, ramos que se expandem pelos móveis e inclusive se apoiam nos meus pés esticados no comprimento da cama. E eu continuo pensando e roendo as unhas, meus cabelos crescem e brotam juntamente ao habitat e cá continuo, as unhas vão alongando e o meu corpo depilado já começa a florescer outra vez e ainda estou aqui, as unhas pretas, o quarto amarelado, uma trepadeira avançando já pelo corredor e galhos tomando sol sob a janela, gramíneas colorindo o assoalho de verde e minuciosas flores aqui e ali, tímidas e murchas.
Então quando eu suspendo a cabeça pra dar uma bisbilhotada ao meu redor, eu chego à conclusão de que eu sou a rainha da floresta coroada por várias margaridas costuradas em ramos e raízes. Essa sou eu, a rainha da floresta.
Espera, acho que não era isso o que eu queria dizer.
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Estratégia soviética
Eu percorria toda aquela penugem do relevo dela; os dois planaltos simétricos e uniformemente contraídos por botões firmes, a planície abaixo dos planaltos levando num rastro muscular até onde outro botão afundava um pouco abaixo do centro da planície. Minhas mãos abriam as palmas como se segurassem uma massa de argila e modelassem as curvas e declives de toda aquela geografia. E eu continuava procurando, orientado pela bússola tátil, as coordenadas da rosa dos ventos dela, onde será, eu pensava, no meio de tanta localização, onde será que eu encontro ela?...
os invasores nobres
Eles estão ali, no interior da fechadura. Estão na rachadura dessas paredes, esses insetos, esses aracnídeos, essas espécies todas, rastejam por trás das caixas de papelão no canto do quarto, corroem esse armário e nadam na poeira das gavetas. Eles se multiplicam, eles se expandem nos alicerces, me observam trocar de roupa e acompanham minha insônia. Às vezes sem querer a gente se encontra, e nesses desencontros eu retiro eles daqui, imagina só, invadindo meu quarto assim.
Na verdade eu nem do tempo direito pra eles dizerem educadamente pra eu me retirar, por favor, está atrapalhando o convívio e harmonia da comunidade. E então eles agradeceriam, “muito obrigado”.
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