segunda-feira, 21 de junho de 2010

zzzzzzz


Bateram na porta. A porta era de vidro, e ela lá fora conseguia me enxergar sentada no outro lado da recepção com o livro aberto, pousado nas coxas cruzadas. Eu ergui meus olhos, olhei para ela. Ela tentava, inutilmente, abrir a porta. E eu olhava: “ta aberta” pensava, e ela continuava empurrando a maçaneta e tocando a campainha. A recepcionista ria ao telefone. Nos outros bancos, somente revistas. E eu ali, bem na frente, observando com precisão a cada pressionada que ela dava com os dedos firmes na maçaneta, claro, tava escrito “pressione” e ela pressionava, ela obedecia e pedia ajuda pela campainha. A recepcionista prendeu o telefone entre o ombro e a orelha, depois começou a lixar as unhas. E eu ali, silenciosamente dizendo “moça, ta aberta”.
Ela então abriu. Entrou, fechou a porta com os olhos cravados no chão. Olhou pra mim, sorriu de lado: “Olha só, tava aberta...”.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Café minguante


Éramos nós duas, nós duas despejando nuvens que delineavam nossos "áureas" e elevavam os assuntos mais confortáveis e convenientes naquela hora da noite. Era cedo demais, não era? Cedo demais pra falar de mais tarde, cedo demais pra entender a solidão das baratas. Era cedo demais pra contar estrelas nubladas, muito cedo pra arrastar pantufas.
Mas ah, cá entre nós, sempre foi tarde pra enxergar o contorno das nossas nuvens fragmentadas. Isso, isso sempre foi mesmo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Tem certeza que deseja deletar este arquivo?



Do que adianta você me oferecer essa eternidade toda? O que eu faço com ela depois? Você diz que tudo acabou pra sermos eternos, e que cada segundo do passado vai continuar acontecendo lá atrás, numa redundante ação de verbos conjugados no infinitivo, indo e retornando, acontecendo pra sempre. Do que adianta, me diz? Do que adianta ser sua no meu passado e hoje já não possuir mais nenhuma relação “piegas” com você? Do que adianta te preservar assim, intacto e parnasiano, e hoje enxergar suas rugas quando você sorri de longe, observar as suas atitudes imaturas e assim conseguir modificar o que já foi, reconhecer o que você não era e que eu mesma, tapada de amor, me recusava a enxergar...? Do que adianta, meu deus?! Me diz, sério, eu quero que você me explique, por que valorizar assim tanto o que já fomos se isso vai se perder, e vai se diluir, e mais tarde vai se modificar porque eu vou esquecer que você tinha alface entre os dentes quando foi dizer que me amava, e daí eu vou pensar que foi tudo lindo, mas não foi, aliás, foi ridículo. Desculpa, foi mesmo.
Se for pra terminar, diz assim “você já não me agrada mais” tudo bem, qual argumento eu vou ter pra isso também, né? Nenhum, oras, o que eu posso fazer se já acabou e ta mesmo nessa merda toda, você também anda chato demais, reclama de tudo, mas tudo bem, não, não vamos discutir isso outra vez, eu já sei, é, eu já sei, já sei... Eu sei que eu to chata também, tudo bem, a gente já falou disso. Tudo bem.
Ah, quer saber, tudo bem é o caramba, enfia essa “eternidade” no cu, romanticozinho de merda. E vai se foder também.

domingo, 16 de maio de 2010

A humanidade inteira dela



Bom dia amor, eu te amo, deixei pães na mesa e o leite no fogão, e eu te amo, ta? Vou chegar um pouco tarde, mas você já sabe, eu te amo, qualquer coisa pode ligar no meu número por que tipo assim, eu te amo, e se tiver desligado você sabe qual é o motivo, te amo e vou estar na reunião, já te disse né? Que eu te amo, e a reunião de hoje e tal... Tenha um bom dia! Te amo e chego à noite, talvez eu traga algum te amo filme pra gente assistir junto antes de dormir, ok? Beijo amor, te amo. Te amo. Eu

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Poeira cósmica



Por entre as frestas da persiana, nas linhas simétricas de luz bailavam pontos brancos como astros e estrelas em movimentos desorganizados, brilhantes, flutuando, caindo e voltando, girando com o movimento das mãos que tentavam apanhá-los. Fechava a palma e trazia para a sombra, mas já não estavam mais lá quando os dedos iam se abrindo um a um; Se desfaziam em faíscas de pôr-do-sol na janela da sala, seguiam a correnteza da cortina e dispersavam diante dos olhos nus, mesmo dos olhos despidos de qualquer formato geométrico.
O nome disso é poeira.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Corujinha, corujinha, que peninha de você


Gostava de dar a volta ao redor da casa, mesmo que o quintal fosse limitado num corredor minado por merda de cachorro e por gritaria dos vizinhos, sim, gostava de passar as mãos nas esburacadas e ásperas paredes, estas cinzas e vermelhas com pedaços de tijolos batidos expostos, sentir aquele cheiro de década passada, aqueles cacos de vidros enfileirado acima do muro e uniformizados de azul, verde, céu... Lá dentro já lhe chamavam; ela se escondia na aresta da parede, ria sozinha, olhava os arames e as portinhas, os chinelos jogados junto aos cachorros, o cachorro dormindo sob a guarda do chinelo.

Já começavam a vir passos que rastejavam as solas dos pés, chamavam “Menina!” e ela corria pelo outro lado; pelo outro lado quem sabe não seria pega, não seria pega pela merda e gritaria, pelo céu azul batido de nuvens ralas, a cadeira de balanço ninada pelo vento, os jornais rasgados rodopiando no chão e pelo cheiro de bolo que vinha na porta da cozinha, um cheiro que somente em suas narinas era peneirado de vestidos de bonecas e pipas azuis.

domingo, 11 de abril de 2010

Quadrilha individual



Em ramos descentralizados no interior dos meus braços se apertam nós frouxos, puxando uma linha emaranhada no centro do peito. O corpo todo, esticado, reproduz reflexos interiores tentando afrouxar, afrouxando em esqueletos de borboletas e pétalas de rosas dissecadas. Os movimentos agora são limitados, as asas das borboletas escarlates e das rosas com pontas secas exalam putrefação, vão preenchendo cada curva e espaço dentro de mim, saem pelas minhas narinas e pelo movimento da língua. Eu te transmito meus nós, torço meu íntimo e meus segredos contorcidos, veja bem, você sente? Você enxerga? Você inalou meu cheiro, apalpou minhas palavras ásperas? São essas, são essas as que me fazem ser um desencontro; sim, um desencontro planejado minuciosamente por criaturas silenciosas e travessas, elas que circundam meus sonhos mais aconchegantes e que sussurram pelos meus lábios mistérios sujos e barrocos.