Por entre as frestas da persiana, nas linhas simétricas de luz bailavam pontos brancos como astros e estrelas em movimentos desorganizados, brilhantes, flutuando, caindo e voltando, girando com o movimento das mãos que tentavam apanhá-los. Fechava a palma e trazia para a sombra, mas já não estavam mais lá quando os dedos iam se abrindo um a um; Se desfaziam em faíscas de pôr-do-sol na janela da sala, seguiam a correnteza da cortina e dispersavam diante dos olhos nus, mesmo dos olhos despidos de qualquer formato geométrico.
Gostava de dar a volta ao redor da casa, mesmo que o quintal fosse limitado num corredor minado por merda de cachorro e porgritaria dos vizinhos, sim, gostava de passar as mãos nas esburacadas e ásperas paredes, estas cinzas e vermelhas com pedaços de tijolos batidos expostos, sentir aquele cheiro de década passada, aqueles cacos de vidros enfileirado acima do muro e uniformizados de azul, verde, céu... Lá dentro já lhe chamavam; ela se escondia na aresta da parede, ria sozinha, olhava os arames e as portinhas, os chinelos jogados junto aos cachorros, o cachorro dormindo sob a guarda do chinelo.
Já começavam a vir passos que rastejavam as solas dos pés, chamavam “Menina!” e ela corria pelo outro lado; pelo outro lado quem sabe não seria pega, não seria pega pela merda e gritaria, pelo céu azul batido de nuvens ralas, a cadeira de balanço ninada pelo vento, os jornais rasgados rodopiando no chão e pelo cheiro de bolo que vinha na porta da cozinha, um cheiro que somente em suas narinas era peneirado de vestidos de bonecas e pipas azuis.
Em ramos descentralizados no interior dos meus braços se apertam nós frouxos, puxando uma linha emaranhada no centro do peito. O corpo todo, esticado, reproduz reflexos interiores tentando afrouxar, afrouxando em esqueletos de borboletas e pétalas de rosas dissecadas. Os movimentos agora são limitados, as asas das borboletas escarlates e das rosas com pontas secas exalam putrefação, vão preenchendo cada curva e espaço dentro de mim, saem pelas minhas narinas e pelo movimento da língua. Eu te transmito meus nós, torço meu íntimo e meus segredos contorcidos, veja bem, você sente? Você enxerga? Você inalou meu cheiro, apalpou minhas palavras ásperas? São essas, são essas as que me fazem ser um desencontro; sim, um desencontro planejado minuciosamente por criaturas silenciosas e travessas, elas que circundam meus sonhos mais aconchegantes e que sussurram pelos meus lábios mistérios sujos e barrocos.
“Já ouviu falar que quem rói unha tem mágoa de pai?” Ela perguntou baixinho do meu lado.E eu dizia, sim, já ouvi, já sei dessa história, de mágoa de pai, e continuava mordendo as cutículas e puxando as fibras da superfície da unha. Às vezes esticava uma camada grossa e rugosa de esmalte escarlate no resto de unha, e depois, cuidadosamente, esfregava a tampa da caneta ou a ponta de uma tesoura na tinta seca aos poucos até suspender toda a casca do esmalte em fragmentos vermelhos. Ficavam somente vestígios de vaidade.
Eles ali diziam que o mundo lá fora era grande, nossa é muito grande, e você, você é o que? Você é um mísero fulano-de-tal filhinho de papai, você aí ta numa transição de ser gente e ser criança, ser criança, ta no processo de ser gente e ser desempregado. Você aí, você aí, coitadinho de você, você aí tem que correr pra não perder a vida que outros lá podem pegar. A sua vida tá competindo com a vida dele, e você tem que ser melhor, não tem vida pra todo mundo e o mundo lá fora é grande e cruel demais pra disponibilizar vida pra galera toda. Deixa de ser criança e empilha os tijolos da sua vida. Você tem que ser gente.
“Você não vai prestar a atenção?” Ela me disse mais uma vez, baixinho. “Eu to prestando”, e agora riscava os dedos com pinceladas de corretivo.
Abaixo dos cílios inferiores derretia o grafite macio e negro do lápis, desenhando numa simetria perfeita, o contorno e a profundidade do rosto; as olheiras profundas, ainda mais profundas agora, se escureciam pelos vestígios da maquiagem. A penugem da face parecia escondida e penteada por uma camada grossa e suada de corretivos; o batom borrava no canto dos lábios um vermelho barato e os poros se abriam, a expressão tentava respirar algum pouco que fosse de naturalidade. Olha pra mim, ela pensou, meu nome é estrela.
Nos últimos dias Maria andou esquisita. Zanzava pela casa aos suspiros, movimentando as pernas num gesto lento, como se as solas nuas dos pés beijassem o assoalho a cada passo quente pelo corredor.
Alisava a curva dos seios com a mão; fechava os olhos e mordia os lábios, se perdendo numa de suas ilusões enquanto dava impulsos com os dedos dos pés no chão, um vai-e-vem sutil no balanço da rede, acabava por se ninar.
Estendia os lençóis brancos no varal enquanto o vento a envolvia, e o vestido escarlate refletia ao sol um vermelho vivo, como se refletisse o calor interno de seu corpo.
Suas mãos deslizavam nos objetos da casa, paredes, percorriam curvas imaginárias formando serpentes invisíveis no ar. Prendia os cachos num laço frouxo no alto da cabeça e deixava algumas mechas desobedientes caírem sobre o rosto e por cima da nuca. Suava flores, sorria nuvens.
O marido não entendia. Falava com ela e ela escutava somente zunidos. Respondia em frases monossilábicas, com um ar tão natural, como se nada lhe importasse mais. Deitavam juntos e ele não sentia a presença dela por perto, como se Maria percorresse os cômodos vazios da casa enquanto ele apertava sua mão. Tomava banhos regados de cantigas e não se incomodava com a presença do marido em casa. Ele ali, aqui, ou lá, tanto fazia, sua imagem na poltrona lendo jornal ou no pé da mesa exigindo um café mais forte já era uma preocupação descartada para Maria.
Ela continuava a ferver água e enxugando os dedos no avental, olhava pela janela, quanto verde lá fora!... Verde, verde, azul no céu, algodão se desfazendo... Maria ficava imaginando que tocar na superfície das nuvens deveria ser a mesma sensação que sentir o limite da água e da espuma em banho de banheira. A espuma leve, não se misturava com a água de jeito nenhum. Nuvem também deve ser assim, ela pensava. Leve demais pra se misturar com a gente.
Um dia o marido chegou do trabalho e chamou por ela. Ninguém respondia. Foi em direção a cozinha e cortou um pedaço de bolo em cima da mesa. Ainda mastigando, ele gritava “Maria!” e ninguém, nada, nem mesmo um burburinho correspondia seu chamado. Andou pelo corredor chamando, olhando cada quarto, mas nada dela. Em cima da cama, somente o avental.
Da janela do quarto pôde enxergar a silhueta do corpo dela despido de qualquer pano se movimentando para longe, cada vez mais longe, os lençóis ora ou outra se sobrepunham sobre sua sombra, um verde imenso mais pra frente, mais além somente azul, azul e nuvens. Ela ia embora, Maria ia embora entre passos arrastados, entre o movimento das mãos roçando as coxas, entre o vento que brincava com o cabelo, arrepiava a penugem do corpo e contraia o broto dos seios.
Leve demais para se misturar com gente, ela pensava com os olhos virados para o céu, era leve demais.
Eu sou solteiro, mas comprei uma cama de casal. O meu quarto – de solteiro – agora é preenchido por um colchão gigantesco (para casal). Quando eu me deito fico em dúvida: direito ou esquerdo? Costumava sempre esticar o corpo no lado esquerdo, mas daí o direito ficava ali, frio, frio, e era como se o calor do meu corpo – no lado esquerdo – fosse menor que o frio do lado direito, e a ausência do lado direito invadia o meu lado esquerdo, o meu calor se esfriava (ou será que se distribuía, numa tentativa de equilíbrio térmico?) e a minha cama de casal inteira congelava embaixo de mim.
A minha roupa de cama (para casal) não possuía nenhum cheiro feminino ou fios de cabelo longo. Nenhuma mulher lavava meus cobertores (de casal). Eu levava numa lavanderia as quartas e borrifava um perfume de mulher no lado direito quando esticava os lençóis por cima do colchão. Quem sabe assim ele esquenta, eu pensava. Mas não esquentava.
O lado direito parecia maior. O lado direito era maior. O lado direito da minha cama (de casal) era mais largo, era mais volumoso, era abandonado. O lado direito sempre estava esticado, e o lado direito permanecia intocável com seu cheiro de sabão em pó e amaciante. O lado direito da minha cama de casal começou a me incomodar.
No início eu esquecia xícaras de chá e relatórios para ler antes de dormir. Um livro de auto-ajuda no canto mais embaixo, revistas, salgadinhos, meias, gravatas, canetas abaixo do travesseiro, pastas, réguas, telefone, celular, laptop, o que fosse cabendo até o cheiro do lado feder a amendoim mofado, meias molhadas, chamadas não atendidas e conhecimento eletrônico inútil. O lado direito da minha cama (de casal, não se esqueça) foi ficando cheio, foi se enchendo de mim mesmo, foi se completando pela minha desorganização afetuosa e eu, comigo mesmo, dormia quentinho e aconchegante embrulhado por um cobertor – de casal, claro – que me envolvia e era coberto, no lado direito, pelo meu calor desleixado. E a cama de casal todinha ficava cheia de mim.
Um dia o lado direito começou a se expandir. Não eram mais somente xícaras; garrafas térmicas, no princípio, ficavam ali caso o café acabasse na minha caneca, depois retornavam à cozinha. Mas daí eu esquecia elas no lado direito e adormecia. Minhas bolsas se encaixavam nos vãos ainda vazios do lado direito, meus gráficos, as inúmeras canetas perdidas nas profundezas do lençol do lado direito, tudo foi completando o lado direito de modo que visualizar a minha cama de casal não era mais tão simples assim, não era mais uma cama de casal, era o lado direito, e o lado direito foi invadindo tudo, cada pedacinho do esquerdo agora era um pouco direito, então não existia mais nada além do domínio direito, nada mais, não havia mais coberta nem travesseiro para mim. O lado direito era um casal sozinho.
Durante um tempo, enquanto eu repensava sobre a situação de perda total de um território do meu lar, fui me ajeitando e acomodando durante semanas naquele sofá limitado em que meus pés ficavam para fora. Ficava refazendo na cabeça, durante a noite, como que o lado direito agiu durante seu golpe silencioso de triunfo sobre o quarto; geralmente a insônia vinha massagear meus pés congelados. Eu dormia mal, eu não dormia.
O silêncio da sala começou a me penetrar e eu me sentia invadido pela ausência de som. A TV passou a madrugar comigo, mas era tão entediante, poucos canais, ficava rodeando e voltando sempre para os meus programas, o mesmo burburinho. Nada de mais.
E então eu comprei o pacote família na TV a cabo. E eu, divorciado com a cama de casal, mudava os meus canais, todos os meus canais do pacote família, e a voz da TV me completava de modo espontâneo. Minha televisão companheira, meus sussurros do pacote família, meu lado direito sonoramente febril. Meu pacote, minha programação (em família, por favor).